Indústria da música é algo complicado! Usei o termo "indústria" porque é assim que as coisas funcionam. Muitas vezes, para os leigos, talvez passe pela cabeça que o necessário para criar um álbum é somente o talento, mas como em qualquer outro negócio, trabalhar com música e fazer um álbum, além de talento, que é o principal pré-requisito, demanda altos investimentos, estratégia, visão de negócio, entre inúmeros outros fatores, que não necessariamente são o que irá garantir o sucesso do álbum ou do artista.
Vou citar para vocês neste post alguns álbuns que, em teoria, tinham todos os elementos para terem sido sucesso nas paradas, mas que por vários motivos, acabaram não tendo o reconhecimento que certamente mereciam ter obtido.
Faço questão de deixar claro que a intenção deste artigo não é, de forma alguma, diminuir o trabalho dos artistas citados. Muito pelo contrário! Desde o princípio, quando eu pensei em escrever esta
Review, a intenção é ressaltar as qualidades. Estou tocando nesse assunto porque hoje em dia fala-se muito em um termo, geralmente usado em tom pejorativo, chamado
Flopar [em outras palavras, não obter o sucesso esperado], mas o tal do
Flop não leva em consideração a qualidade, apenas os índices de vendas, de execução em programas de rádio e televisão. A indústria da música tem muito disso! Muitas vezes, os índices quantitativos valem mais do que os qualitativos, o que leva uma música ou um álbum que tinha tudo para fazer sucesso, acabar não tendo o desempenho esperado. Por outro lado, também pode levar algumas músicas e álbuns que você nunca imaginaria estar fazendo sucesso, ganharem o mundo.
Mama Lover (Serebro)
Esté é o segundo álbum do trio russo
Serebro e o seu primeiro com foco no mercado mundial, composto quase em totalidade por faixas em inglês, sendo a maioria também releituras para as músicas em russo do trio. É um álbum que particularmente acho muito bom, e que certamente teria agradado muitos fãs fiéis de
euro dance e
house, mas que por uma razão um tanto fútil, mas bem comum, não teve a projeção merecida pela própria gravadora.
O álbum possui várias faixas excelentes, mas só contou com 2 singles oficiais: as músicas
Mama Lover, que dá título ao álbum e que segundo a gravadora alcançou um sucesso moderado na Europa, e
Gun, que eu percebi ter feito muito sucesso no Brasil. Ouvi essa música em baladas, rádios e até sendo usada como jingle em propagandas.
Apesar de eu ter gostado dos singles, minhas faixas preferidas são outras. Músicas muito boas, aparentemente com um grande potencial, se fossem utilizadas e divulgadas da maneira correta, mas que acabaram se tornando meras coadjutantes, como
Paradise, Angel Kiss e Never Be Good, mas as verdadeiras obras primas são Like Mary Warner, Why? e
Sexing You.
Destiny (Tom Hopkins feat. Samara)
Costumo dizer que esse é um dos melhores álbuns de um artista brasileiro do segmento de música eletrônica. O DJ
Tom Hopkins já produziu e selecionou repertório de outros álbuns de música eletrônica em totalidade, como o
Dreams do extinto projeto Dalimas, em 2006, e as coletâneas em CD do programa
Superpop com Luciana Gimenez, no qual ele trabalhava como sonoplasta. A sonoridade de
Destiny, único álbum do seu projeto em parceria com a cantora
Samara Iácono, ficou muito bem bolada e madura
[diferente do álbum do Dalimas, por exemplo].
Essa empreitada começou quando a cantora Giovana Félix, uma participante da primeira temporada do
reality show Ídolos do SBT, formou o projeto House Boulevard junto com Hopkins, William Naraine (o Double You), Gino Martini e Cássio Play, mas após lançar dois singles, Giovana partiu para outro projeto e Samara assumiu os vocais do House Boulevard, chegando a lançar apenas
Set Me Free, o terceiro single e maior sucesso do projeto.
Com o fim do House Boulevard, Tom Hopkins e Samara iniciaram um projeto só deles dois. O duo lançou o single
Destiny e estourou nas paradas em todo o Brasil, fazendo um sucesso que se manteve como o de
Set Me Free. Juntos estes singles renderam à Tom Hopkins e Samara prêmios no
DJ Sound Awards.
Logo depois vieram os singles
Let The Party Started,
Power Of Love e
Bring It On, um melhor que o outro, até vir o álbum completo, com CD duplo, sendo o Disco 1 com as faixas eletrônicas e o Disco 2 com faixas acústicas e pop/rock. Sem sombra de dúvidas foi um material muito bem bolado, mas que não ganhou a atenção do público. Faixas sensacionais como
Believe Me,
Stay With Me e
Bring Me Love, tanto em suas versões originais quanto acústicas, e os excelentes remakes dos clássicos
I'll Fly With You e
Livin' On A Prayer ficaram na geladeira.
Um dos maiores vilões contra o sucesso do álbum
Destiny sem sombra de dúvidas foram os downloads ilegais, seguido do fato de que o público brasileiro prefere valorizar o que é produzido fora do que o que é fruto dos artistas nacionais.
Ready To Dare (AnnaGrace)
Ao contrário de como muitos demonstraram pensar, eu não penso que
Ready To Dare, o álbum de estréia do projeto
AnnaGrace, tenha ficado inferior aos álbuns do Ian Van Dahl, ex-projeto da cantora e compositora belga Annemie Coenem, que a consagrou como uma das divas da música eletrônica mundial. Conceitualmente, acho até que o
Ready To Dare chegou a superar os trabalhos do Ian Van Dahl com singles e álbuns
[Eu disse "conceitualmente"! Não vá me interpretar mal, ok?].
Este álbum é um divisor de águas na carreira da Annemie! Ao ouvi-lo, você se depara com um
trance moderno, bem consistente e que acompanhou as tendências de evolução desse segmento musical. Não que o trabalho do Ian Van Dahl já não fosse, mas o álbum de AnnaGrace acompanhou a mudança da artista. Não soava como um Ian Van Dahl que tinha somente mudado de nome, soava como algo totalmente novo, mas sem se perder da essência.
A escolha dos singles também foi impecável, mas talvez a demora no lançamento do álbum tenha os prejudicado. Quando o ábum foi lançado, AnnaGrace já estava trabalhando com o seu quarto single, e depois do lançamento do álbum, somente mais um single foi lançado, e algumas faixas sensacionais ficaram na geladeira, como
Beat Of My Heart [não me conformo em esta não ter sido single] e
Shoud Have Know Better.
Detalhe: este álbum era super aguardado pelo público amante de música eletrônica, que já esperavam pelo 3º álbum do Ian Van Dahl desde 2007
[e que acabou não sendo lançado nunca, por conta do fim do projeto], mas o álbum de estréia da AnnaGrace acabou restrito à Bélgica, uma parte pela certa frustração dos fãs do Ian Van Dahl em relação ao trabalho de AnnaGrace e outra parte por conta da ausência de estratégia promocinal da gravadora com foco no mercado mundial.
Resultado: hoje em dia esse excelente álbum é raro, porque foi lançado em uma tiragem muito pequena e restrita ao seu país de origem. Uma pena!
Red (Dangerous Muse)
O excelente
Red, que poderia ter servido como porta de entrada para o tão esperado álbum
Take Control do
Dangerous Muse, acabou servindo apenas como um divisor de águas na carreira do projeto. O lançamento do EP ocorreu logo após o tecladista Tom Napack abandonar o duo e Mike Furey ficar sozinho na parte criativa, mas com o suporte da sua banda de apoio, ele decidiu continuar com o Dangerous Muse ao invés de partir para a carreira solo ou simplesmente abandonar o projeto que mantinha desde 2005, com o lançamento do single e EP de
The Rejection.
Desde o início, o Dangerous Muse nunca lançou um álbum completo, somentes EPs e singles em formato digital e um único Promo CD com remixes de
Give Me Danger em formato físico. Em 2009, começou-se a especular sobre
Take Control, o álbum de estréia deles, com lançamento previsto para 2010 e que teve até single carro-chefe oficialmente lançado, com direito à clipe bem produzido e tudo, para a música
I Want It All. Também chegou a ter algumas faixas vazadas, mas até hoje nunca veio a conhecimento público em totalidade.
Red EP foi lançado no final de 2012 e o seu download foi disponibilizado gratuitamente por Mike Furey através do site oficial do Dangerous Muse. Uma excelente estratégia, não? Algum tempo depois, o álbum também começou a ser vendido em formato físico, também pelo site oficial do projeto, ao preço de U$25
[e ainda dá pra comprar, com Frete de U$10 para o Brasil. Um total de U$35, cerca de R$78,50].
Para compreender toda a magnitude e saber mais detalhes sobre o
Red EP, leia a nossa resenha escrita na época do seu lançamento clicando
AQUI.
Abaixo, você poderá ouvir o EP na íntegra, através da página oficial do Dangerous Muse no SoundCloud:
Obviamente, há muito mais álbuns de música eletrônica, de artistas brasileiros e estrangeiros, que achamos que não teve a projeção e reconhecimento merecido. No entanto, fica inviável escrever sobre todos em um único post, né? Iria ficar algo imenso isso aqui. rsrs... Mas procurei escrever sobre 4 dos que eu acho bem injustiçados, visando promover uma análise breve, pertinente e agradável à leitura :)